Maya Gabeira: a história da brasileira que redefiniu o surfe de ondas gigantes

Maya Gabeira: a história da brasileira que redefiniu o surfe de ondas gigantes

Publicado em 12 de fev. de 2026 7 minutos de leitura

Maya Gabeira é um dos nomes mais importantes da história do surfe de ondas gigantes. Reconhecida mundialmente por enfrentar algumas das maiores ondas do planeta, a surfista brasileira construiu uma trajetória marcada por coragem, técnica e superação, tornando-se referência absoluta dentro e fora do mar.

Nascida no Rio de Janeiro, Maya seguiu um caminho pouco comum no surfe profissional. Em um ambiente historicamente dominado por homens, escolheu desafiar ondas gigantes quando ainda havia pouca visibilidade para mulheres na modalidade. Suas performances em picos lendários ajudaram a redefinir o espaço feminino no big wave surfing.

Mais do que recordes e prêmios, a história de Maya Gabeira fala sobre resiliência e transformação. Entre desafios extremos, retornos marcantes e conquistas históricas, sua trajetória ultrapassa o esporte e se conecta com temas como representatividade, igualdade e evolução do surfe mundial.

Confira detalhes da trajetória dessa grande recordista do surfe aqui no blog da Netshoes.

Infância no Rio de Janeiro e a relação precoce com o mar

Nascida em 1987, no Rio de Janeiro, a futura referência do surfe de ondas gigantes cresceu em um ambiente que combinava forte estímulo cultural e liberdade de escolhas. Filha do jornalista e ex-deputado Fernando Gabeira e da estilista Yamê Reis, teve uma infância marcada por acesso a diferentes universos, o que ajudou a construir uma personalidade independente e pouco conformada com padrões tradicionais.

O contato com o mar aconteceu de forma direta e cotidiana. Durante a adolescência, passou a frequentar com regularidade as praias da zona sul carioca, especialmente Copacabana, onde teve o primeiro contato com o surfe. Aos 14 anos, subiu pela primeira vez em uma prancha, aprendendo sem escola formal, desenvolvendo leitura de onda, equilíbrio e respeito às condições do oceano a partir da prática constante.

Alguns acontecimentos desse período ajudam a entender como o surfe deixou de ser apenas interesse e passou a definir seu caminho:

  • Primeira experiência com o surfe aos 14 anos, nas praias do Rio de Janeiro.
  • Vivência intensa em Copacabana, praia conhecida por condições imprevisíveis e desafiadoras.
  • Decisão de se dedicar integralmente ao surfe ainda na adolescência.
  • Mudança para o Havaí aos 17 anos, passo determinante para a carreira internacional.

Essa relação precoce com o mar não foi construída de forma casual. Desde cedo, a escolha por ambientes desafiadores e por decisões fora do comum apontava para uma trajetória que, anos depois, colocaria seu nome entre os maiores da história do surfe de ondas gigantes.

Ondas gigantes ao redor do mundo: evolução técnica e mental

A evolução como atleta de ondas gigantes foi construída em alguns dos picos mais exigentes do mundo, cada um responsável por ampliar habilidades técnicas, físicas e mentais. A experiência nesses locais moldou a forma de surfar, de se posicionar no mar e de tomar decisões sob pressão extrema.

Entre os picos mais determinantes dessa fase, destacam-se:

  • Waimea Bay (Havaí): considerado um dos berços do big wave surfing, foi essencial para o desenvolvimento de leitura de ondas, entrada em condições pesadas e compreensão do ritmo do mar.
  • Mavericks (Califórnia): fundo rochoso, água gelada e ondas imprevisíveis exigiram precisão técnica, preparo físico elevado e tomada de decisão em segundos.
  • Dungeons (África do Sul): ampliou a capacidade de adaptação a mares rápidos e volumosos, reforçando a versatilidade em ondas grandes.

Paralelamente à vivência nesses picos, a preparação passou a ser cada vez mais específica e estratégica. O treinamento físico ganhou foco em força funcional e resistência, fundamentais para suportar impactos intensos, longas remadas e sessões em condições extremas. A apneia também se tornou parte central da rotina, preparando o corpo para quedas profundas e para o tempo prolongado debaixo d’água após um wipeout.

Fora do mar, o trabalho mental assumiu papel decisivo nesse processo de evolução. O controle emocional, a leitura precisa do oceano e a visualização de cenários de risco passaram a integrar a preparação diária.

Essas práticas ajudaram Maya a tomar decisões rápidas e conscientes em ambientes de alta pressão. A combinação de preparo físico e mental sustentou a consolidação como atleta de ondas gigantes, permitindo que ela atuasse com segurança e desempenho em alguns dos picos mais desafiadores do mundo.

Nazaré como ponto de virada na carreira

Durante uma sessão em 2013, na Praia do Norte, em Nazaré, Maya foi surpreendida por uma sequência de ondas extremamente pesadas. Após entrar em uma onda, foi atingida por outra logo em seguida, ficando submersa por um período prolongado. O impacto e a dificuldade de orientação naquele momento mostraram o real grau de risco do surfe de ondas gigantes, especialmente em um pico ainda pouco explorado na época.

A situação exigiu resgate imediato, realizado por membros da equipe que acompanhavam a sessão. O episódio teve consequências físicas sérias e também um impacto emocional profundo, já que expôs limites reais de segurança, preparo e estrutura disponíveis naquele estágio do big wave surfing em Nazaré. Não se tratou de um erro isolado, mas de um cenário em que o mar impôs condições extremas além do controle humano.

Esse acidente se tornou um divisor de águas na carreira. A partir dele, houve um período de afastamento do mar e uma reavaliação completa da forma de encarar ondas gigantes, desde estratégias de entrada até protocolos de segurança.

Mais do que uma pausa forçada, o episódio marcou o início de uma relação mais consciente e estratégica com o risco, que influenciaria diretamente a fase mais madura e vitoriosa da trajetória nos anos seguintes.

Recordes mundiais e reconhecimento histórico

Ao longo da carreira, Maya construiu uma sequência de marcas históricas que a colocaram definitivamente no centro do surfe de ondas gigantes mundiais. Confira os principais:

  • 2018 – Entra para o Guinness World Records ao surfar, em Nazaré, a maior onda já registrada por uma mulher até então, consolidando seu nome na história do surfe de ondas gigantes.
  • 2020 – Volta a quebrar o próprio recorde na Praia do Norte, em Nazaré, ao surfar uma onda de 22,4 metros, feito reconhecido oficialmente pelo Guinness em 2021, estabelecendo um novo marco mundial no surfe feminino.

Esses recordes representam o momento em que Maya passa a ocupar, de forma definitiva, um lugar central na história do surfe de ondas gigantes, não apenas como referência feminina no esporte, mas como um dos grandes nomes da modalidade.

“Maya and the Wave” e a luta por espaço no surfe

O impacto da trajetória foi tão significativo que deu origem ao documentário “Maya and the Wave”, lançado em 2022. Dirigido pela cineasta Stephanie Johnes, o filme foi produzido ao longo de vários anos e acompanha momentos decisivos da carreira no surfe de ondas gigantes, além dos bastidores que o público raramente vê. A produção ganhou projeção internacional ao ser exibida pela HBO, levando sua história para além do universo do surfe.

Mais do que um registro esportivo, o documentário contextualiza a luta por espaço em um ambiente historicamente dominado por homens. A narrativa expõe desigualdades de reconhecimento, resistência à presença feminina em ondas gigantes e os desafios enfrentados mesmo diante de resultados expressivos, ampliando o debate sobre representatividade no esporte.

Essa visibilidade fortaleceu também a atuação fora da água. O engajamento ambiental passou a ocupar papel central, culminando na nomeação como Campeã da UNESCO para o Oceano e a Juventude. A partir desse espaço institucional, a surfista passou a usar sua projeção global para defender a preservação dos oceanos e a educação ambiental.

A despedida do surfe profissional e o legado deixado

Maya Gabeira anunciou oficialmente sua aposentadoria do surfe profissional de ondas gigantes em janeiro de 2025, aos 37 anos de idade, após 20 anos de carreira dedicada ao big wave surfing.

Ela fez o anúncio por meio de uma mensagem nas redes sociais, onde explicou que sentia que já cumpriu o propósito de sua trajetória no esporte e estava pronta para buscar novos caminhos e experiências fora da competição profissional. Maya afirmou que o surfe de ondas gigantes lhe serviu um propósito importante ao longo de duas décadas e que agora queria viver outras fases da vida com a mesma intensidade e significado.

A decisão veio após anos de feitos extraordinários — incluindo recordes mundiais e conquistas que redefiniram a presença feminina no esporte — e também após lidar com os efeitos acumulados de anos surfando em condições extremas, o que impõe grande desgaste físico e mental. Além disso, ela expressou que a aposentadoria permitiria maior equilíbrio entre vida pessoal e novas formas de impacto, como seu trabalho em defesa dos oceanos, representatividade no esporte e projetos fora d’água.

Mesmo aposentada do circuito profissional, Maya continua ligada ao surfe de forma apaixonada e pretende manter o esporte como hobby, assim como dedicar mais tempo a outras atividades com propósito, como defesa ambiental, comunicação e inspiração para novas gerações

Maya Gabeira: inspiração que vai além das ondas

A trajetória de Maya Gabeira mostra como talento, coragem e resiliência podem transformar não apenas uma carreira, mas todo um esporte. Ela abriu caminhos para mulheres no surfe de ondas gigantes, redefiniu limites e deixou um legado que inspira gerações de atletas e apaixonados pelo oceano.

Quer continuar descobrindo histórias incríveis do esporte? No blog da Netshoes você encontra conteúdos sobre atletas, modalidades e curiosidades que mostram o mundo do esporte de forma completa e inspiradora.